A medicina formou você para trabalhar doente. E você aceitou.
Existe uma frase não escrita em todo corredor de hospital-escola, em todo plantão de residência, em toda reunião de equipe médica: você aguenta. Não como encorajamento. Como exigência.
E a maioria de nós aceitou. Porque aceitar foi o preço da formação.
O que a residência ensina que nenhum currículo admite
A residência médica é estruturada, em muitas instituições, de uma forma que seria considerada inadequada em qualquer outro contexto de formação de adultos. Plantões de 24 e 36 horas seguidos de atividades diúrnas normais, privação crônica de sono documentada, exposição a situações de alta carga emocional sem suporte estruturado e uma hierarquia que frequentemente silencia quem ousa reclamar.
Não estou criticando os médicos que esse sistema formou. Estou criticando o sistema que formou esses médicos — e que continua formando, agora, os que virão depois.
O que precisa mudar — e o que você pode fazer agora
A mudança estrutural da formação médica é necessária e urgente. Mas ela é lenta — e você está precisando de ajuda agora, não quando o sistema mudar. O que está disponível hoje é a decisão de romper individualmente com a narrativa que o sistema lhe entregou.
Isso significa reconhecer que trabalhar doente não é dedicação — é um risco clínico para você e para seus pacientes. Que buscar suporte psicológico ou psiquiátrico não compromete sua autoridade como médica — a expande.
O sistema te formou para aguentar. Mas ninguém te disse que você tinha o direito de não aguentar — e que exercer esse direito pode ser o ato mais responsável da sua carreira.
Por Dra. Rochelle Marquetto — Médica psiquiatra com abordagem funcional integrativa, especialista no tratamento de burnout. Já acompanhou mais de 6 mil pacientes na jornada para uma saúde mental mais equilibrada e sustentável.



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